Musa

  Talvez o segredo esteja no andar. Na voz não pronunciada. Nos sorrisos trocados discretamente. Talvez não haja segredo! E as faíscas estejam tão evidentes quanto em uma noite de reveillon, de forma que pudessem ser tocadas. Mas sentimentos não são palpáveis, e nem sempre recíprocos. Por isso, é preciso agir como se não a conhecesse. Como se vê-la não trouxesse luz para seu dia, como se seu corpo não emanasse poesia.

   Resta-lhe observar. De longe, se possível. Pois sempre há algo novo para ver, admirá-la lhe dá a possibilidade de fazer uma descoberta por vez e cada uma delas lhe incita a tê-la mais perto ainda. A admiração secreta não lhe é saudável, mas parece cômoda e confortável. E por isso não se dava o fim da fascinação pela tal linda moça, sua beleza extraordinária demais para se encaixar em padrões e seu olhar vazio, que iria longe o suficiente a ponto de não saber-se ao certo qual era o rumo a alcançar. Cada minúsculo detalhe imperceptível lhe parecia encantador, e todo o tempo antes de conhecê-la agora lhe parecia inútil.

   A arte era seu consolo, o recipiente onde despejaria toda sua devoção. Aproveitava-se da figura sublime que era sua musa, e produzia seus contornos de outras formas, em outros aspectos. Explorava todas as particularidades, sugava minuciosamente a cada interpretação que tomava daquele indivíduo que tanto encantava-lhe. E por fim, quando sua musa tornava-se exclusivamente concreta, sentia-se pleno em relação a seu coibido sentimento.

Operação: superar

  Disseram-me que se esquece um amor arranjando outro, e isso era tarefa fácil. Mas e quando você quer esquecer o tal amor, e ele simplesmente não sai de você? Quando o guarda apenas para os amigos mais íntimos e as súplicas mais profundas antes de dormir, mas ele permanece vivo e inconvenientemente intenso? Deveria haver uma linha tênue entre amar e sofrer, que separasse os verbos para nos dar a chance de senti-los um por vez. Mas essa é apenas uma ideia boba! Pois os dois juntos, unidos e misturados nos provam que o verdadeiro amor é aquele que te perturba, e mesmo assim você não enjoa. Não diz chega. E se ousar a dizer, é baqueado com a indiferença do seu coração para as ordens da sua mente.

  Ele é como um chefe petulante, que comanda as reações de cada partícula do nosso corpo. Os pensamentos compulsivos, as borboletas no estômago e até mesmo aquela pontada na espinha de ciúme, de raiva. Torna-se difícil manter a calma e a sanidade, pois tudo aponta para um precipício de onde não se sai intacto. Assim se definem as sensações! O começo é doce, o meio é intenso e o final… Doloroso.

  Também dizem por aí que a passagem entre amar ou sofrer um dia chega em seu destino final, onde os sentimentos viram cinzas e nada mais se lembra. Você pode passar por essa viagem gritando de dor ou fingindo que ela não existe, em cima de um salto quinze, divertindo-se com seus amigos. É a sua vida, sua escolha.

Estupidez

O natal não era minha data favorita do ano, mas parecia boa o suficiente para que eu não a desperdiçasse pensando em um garoto bobo. Minha família toda estava presente e ria em volta da mesa, exceto por minha avó, que observava a todos em um canto extremo da sala de estar. Talvez, fosse por essa razão que ela era sempre tão sábia. Por mais altas que fossem nossas conversas e mais expressivas que fossem nossas gargalhadas, ela nunca deixava seu bom e velho banco. Quem quisesse um minuto de sua atenção, iria até lá.

– Isabela, sua estupidez não te deixa ver que eu amo só a você…

– Estupidez? Agora sou estúpida? O que quer dizer com isso, Michael?

– Não quero dizer nada. Você não é estúpida, mas está se comportando dessa maneira agora.

– É fácil para você falar, quando não me viu com nenhum garoto. – limpei o rosto, impedindo que qualquer lágrima descesse sob ele.

– Sabe que ela é minha amiga, não? E só tenho olhos para você.

– Já não sei se posso ter certeza disso. – cuspi rispidamente minhas últimas palavras, batendo a porta do quarto e dando por fim aquela conversa.

A mesa estava recheada de gostosuras e a luz baixa deixavam as pessoas mais atrativas, mas mesmo assim, não conseguia impedir minha mente de viajar até Rafael, e perguntar-me o que ele estaria fazendo naquele momento, com quem estava e se éramos tão ligados a ponto de pensarmos um no outro ao mesmo tempo. Já não dava mais atenção às piadinhas medíocres de seu tio e ao exibicionismo desnecessário de sua mãe, que dizia orgulhosa sobre como ela havia sido boa aluna aquele ano. Suspirei fundo e fugi espreitamente da sala de jantar, indo até onde minha avó estava.

– Não vejo um sorriso em seu rosto, minha pequena. O que há com você? – o balanço de sua cadeira fazia um suave barulho, contrastando com sua voz, que me trazia uma constante calmaria.

– Nada demais, vovó. Não merece se preocupar com meus dramas cotidianos. – pisquei-lhe, segurando sua mão.

– É isso que as famílias fazem, Luana. Se preocupam com os dramas cotidianos uns dos outros, é para isso que estamos aqui.

– Sério? Pensei que a senhora estava aqui para acalmar as crianças e nos fazer a ceia! – brinquei, arrancando uma gargalhada coletiva.

– Vamos, me conte!

– Foi Michael… Nós brigamos. – fitei meu colo.

– Por quê? Ele parece ser um bom menino…

– Ele é, e eu sou uma idiota, vovó. – fiz uma pausa – Brigamos porque eu estava enciumada, mas agora não sei se tinha motivos para isso. Eu o amo e ele também me ama, eu não deveria estragar tudo em plena véspera de natal.

– Mas sua véspera não será feliz se você não estiver se sentindo assim… E eu vejo que não está.

– Vê?

– Eu vejo tudo, querida. É por isso que raramente falo, sou daquelas que prefere ouvir…

– E o que está vendo, agora?

– Agora? – olhou intensamente para mim por alguns segundos, deixando-me um pouco sem ação – Vejo uma garotinha triste porque sente falta de alguém… E agora, concluo que esse alguém é Michael.

– Uau, avó e vidente. Quantas mais profissões a senhora tem? – a provoquei novamente.

– Muitas, minha filha, muitas.

– E qual o seu conselho para mim? – sorri, com expectativa.

– Viva o natal!

– Sim vovó, viva o natal…

– Não, Luana. Viva o natal!

– Como? – pisquei, sem entender.

– Viva o momento, querida. Vá atrás desse garoto, se é o que você deseja agora. Não deixe que o seu orgulho te impeça de ser feliz.

– Tem razão… Mas ele deve estar com a família, ou os amigos… Ocupado demais para mim.

– Qual é, menina! Vocês são um casal. Ele nunca estaria ocupado demais para você. – me deu um tapinha.

– Mesmo depois do que eu fiz? – perguntei, amedrontada.

– O drama está incluso no pacote de toda relação, você apenas causou um estresse casual. Agora vá! Não perca seu tempo com os trocadilhos do seu tio. – selou minha bochecha com carinho.

Fechei os olhos por uma fração de segundo, para me certificar de que aquela era mesmo a atitude certa a ser tomada para solucionar meu dilema.  Mas afinal, quem poderia ser mais inteligente que a mãe de minha mãe? Levantei-me e peguei um velho casaco jogado no sofá.

– Mamãe, papai, preciso ir à casa do Michael… Volto em breve! – gritei da porta, enquanto a atravessava.

– Não se preocupe minha filha, adolescentes têm essas coisas… – vovó encarregou-se de advertir minha mãe que meu sumiço instantâneo não provinha de uma causa grave.

Ao chegar na rua, corri o mais rápido que pude. Parte de mim por pressa de encontrá-lo, a outra por um medo tolo de que acontecesse algo. A rua parecia mais longa que o comum, nas tardes em que apostávamos corrida até a casa do outro, e eu me sentia sortuda por ser sua vizinha. Havia a possibilidade dele não querer mais essa proximidade, mas ali estava eu, de coração aberto, esperando que o dele estivesse também.

– Michael! Michael! – bati insistentemente em sua porta.

Esperei por alguns segundos, e quando preparei-me para bater novamente, a porta foi aberta inesperadamente.

– Luana? – questionou um pouco surpreso, ao ver o suor em minha testa e a respiração ofegante.

– Eu sou uma estúpida. Já fui estúpida outras vezes com você, mas devo ter passado dos limites hoje a tarde… Então, vim correndo para te pedir desculpas e eu não sei se vai me perdoar, mas as crises de ciúmes são fruto do amor excessivo que eu sinto por você… Sabe como é, eu não tenho culpa por ser tão incrível comigo. Agora, só quero concertar o que fiz e espero que esteja bem comigo. De verdade. – suspirei fundo.

Michael riu. Pensei estar parecendo uma idiota, me declarando a meia noite em frente a sua casa. Mas ele sempre ria dessa maneira por meu jeito intencionalmente atrapalhado. Quando surpreendentemente, me abraçou apertado, fazendo com que aquele momento durasse mais que qualquer relógio indicaria.

– Eu sabia que você viria… – sussurrou em meu ouvido.

Permissão

o-cara-que-eu-amo

  Seria mentira se eu dissesse que não exerce nenhum efeito sobre mim. Mas seria ousado demais admitir todos os inevitáveis sintomas de uma paixão nascendo cada vez que você se aproxima. Então, coloco-me em uma posição onde você não enxergue, mesmo que isso exija muito de mim. Engulo seco, respiro fundo e guardo todas as palavras que podem parecer bobas demais. Causar boa impressão deixa de ser intencional, e passa a ser necessidade. As coisas não deveriam acontecer dessa forma, mas as más línguas dizem que é dessa maneira que toda história de amor se sucede. Mas a pulsação acelerada não se deixa enganar, e indica que estou caindo desenfreadamente e sem chance de volta em um abismo que me levará até você. Mesmo sem saber se estará lá me esperando ou não.

  Se estiver, então, prometo lhe deixar me ver por inteira. Com todos os defeitos, cicatrizes e manchas em minha memorável história. Talvez goste, ou queira regredir, espero que avise logo e poupe todo o leque de sentimentos que você abriria se me deixasse de repente. Se preferir não esperar… Sobrará a mim os cacos. A raiz a ser arrancada e todo o trajeto de retorno. Sua imagem se fará presente na minha mente por mais algum tempo e então, por fim, seguirei da mesma forma que antes.

  Mas eu te deixo entrar! Te deixo amolecer minha estrutura, invadir meu estômago com borboletas e bagunçar minha cabeça. Te dou permissão, esteja aqui quando quiser.


Escrito por Sarah Santos.