Musa

  Talvez o segredo esteja no andar. Na voz não pronunciada. Nos sorrisos trocados discretamente. Talvez não haja segredo! E as faíscas estejam tão evidentes quanto em uma noite de reveillon, de forma que pudessem ser tocadas. Mas sentimentos não são palpáveis, e nem sempre recíprocos. Por isso, é preciso agir como se não a conhecesse. Como se vê-la não trouxesse luz para seu dia, como se seu corpo não emanasse poesia.

   Resta-lhe observar. De longe, se possível. Pois sempre há algo novo para ver, admirá-la lhe dá a possibilidade de fazer uma descoberta por vez e cada uma delas lhe incita a tê-la mais perto ainda. A admiração secreta não lhe é saudável, mas parece cômoda e confortável. E por isso não se dava o fim da fascinação pela tal linda moça, sua beleza extraordinária demais para se encaixar em padrões e seu olhar vazio, que iria longe o suficiente a ponto de não saber-se ao certo qual era o rumo a alcançar. Cada minúsculo detalhe imperceptível lhe parecia encantador, e todo o tempo antes de conhecê-la agora lhe parecia inútil.

   A arte era seu consolo, o recipiente onde despejaria toda sua devoção. Aproveitava-se da figura sublime que era sua musa, e produzia seus contornos de outras formas, em outros aspectos. Explorava todas as particularidades, sugava minuciosamente a cada interpretação que tomava daquele indivíduo que tanto encantava-lhe. E por fim, quando sua musa tornava-se exclusivamente concreta, sentia-se pleno em relação a seu coibido sentimento.

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